As gravadoras independentes estão mudando sua abordagem. Após anos investindo em catálogos cada vez maiores e lançamentos frequentes, as labels ‘indie’ passam a priorizar a qualidade sobre a quantidade. Esta conclusão foi revelada no terceiro estudo anual da MIDiA Research, que analisa selos e distribuidoras independentes, publicado em janeiro de 2026.
A pesquisa, que ouviu 144 empresas que se identificam como independentes, mostra que a ideia de “quanto mais, melhor” vem perdendo espaço. Se 2024 foi um ano de ajustes e reestruturações, 2025 foi marcado pela busca de um refinamento. O foco agora é criar catálogos mais elencados, com investimentos mais robustos em cada artista.
Essa mudança reflete a tentativa dos independentes de se adaptarem a um mercado mais caro e saturado de lançamentos. A nova lógica é proteger os projetos existentes e maximizar o valor de cada um deles, em vez de ampliar o número de contratos.
Menos contratos e mais cautela no A&R
Uma das principais razões por trás dessa mudança é o aumento nos custos de contratação e desenvolvimento. Embora menos da metade dos selos relatem que a assinatura de novos artistas esteja mais cara do que há dois anos, esse grupo cresceu quase dez pontos percentuais desde 2023. Isso aponta para uma pressão financeira crescente no A&R das gravadoras independentes.
Simultaneamente, diminuiu o número de selos que dizem estar lançando mais música do que antes. Após um aumento em 2024, o ritmo de lançamentos começou a desacelerar. A percepção é que ter muitos projetos ativos simultaneamente prejudica o acompanhamento artístico e o desenvolvimento de carreira a longo prazo.
Outro aspecto importante é a preocupação com o desenvolvimento artístico. Em 2025, quase 75% dos participantes concordaram que a busca por resultados imediatos tem negligenciado esse processo. Este é o índice mais alto já registrado pela pesquisa neste tema, destacando que o modelo anterior já não se sustentava.
Saturação do streaming pressiona a estratégia
O cenário de conteúdo excessivo serve de contexto para essa reavaliação. Destacar-se na era do streaming continua sendo o maior desafio, e manter o interesse do público após um lançamento tornou-se uma barreira adicional.
Mais de 75% das gravadoras independentes afirmam que reter a audiência está mais difícil do que nos anos anteriores. Mesmo quando um single ou álbum tem um bom desempenho inicial, a competição pela atenção é constante. O aumento nos lançamentos, que antes era visto como uma vantagem estratégica, passou a ser um obstáculo para os selos.
No início da década, a estratégia era dominar as plataformas com frequência. O próprio relatório de 2023 da MIDiA mencionava o “jogo do volume” como característica daquela época. Contudo, agora, os dados indicam que essa abordagem não se sustenta mais para muitos no mercado independente.
Mudança de prioridades para 2026
A mudança fica mais evidente ao comparar as prioridades dos selos nos últimos três anos. A opção “assinar mais artistas” caiu dez pontos percentuais entre 2023 e 2025. Em contrapartida, “focar em menos artistas” cresceu 16 pontos, tornando-se uma das principais diretrizes para 2026.
Estratégias mais expansivas, como buscar novos mercados ou criar novas fontes de receita, perderam prioridade a curto prazo. A maioria das gravadoras deixou de considerar essas ações como urgentes, preferindo fortalecer operações já estabelecidas.
Embora essa mudança não seja exatamente nova, ela ganhou força em 2025. O que antes era uma tendência emergente agora se consolidou como uma decisão estratégica mais ampla no setor independente.
Um novo ciclo para as independentes
Com os ajustes realizados, 2026 se apresenta como um ano para colher os frutos. As gravadoras esperam que elencos menores possibilitem um planejamento mais criterioso, investimentos mais focados e relacionamentos mais fortes com artistas e audiências.
A pesquisa da MIDiA indica que o ambiente dos independentes passou por mudanças estruturais nos últimos anos. A busca por escala deu lugar a uma visão mais pragmática sobre limites operacionais, custos e a capacidade real de desenvolver carreiras.
Em vez de competir em volume com grandes grupos ou com as dinâmicas do streaming, muitas gravadoras independentes parecem dispostas a reforçar o que sempre foi seu diferencial: proximidade, curadoria e atenção individual aos projetos que escolhem defender.
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Fonte: Blog Mundo da Música
