Na última década, a rotina de artistas independentes passou a ser mediada quase que totalmente por plataformas externas. O lançamento ocorre no streaming, a divulgação depende das redes sociais e a interação com o público se torna fragmentada entre algoritmos, métricas pouco claras e retornos financeiros imprevisíveis. Para bandas que estão constantemente ativas, esse modelo gera um desgaste operacional e criativo que raramente resulta em controle verdadeiro da carreira.
Foi com base nessas experiências que a Scalene criou a Superfans. A plataforma serve como um ambiente digital próprio, idealizado para que artistas centralizem relacionamento, conteúdo e monetização em um só lugar. Nela, cada artista pode formar sua própria comunidade. No caso da banda, esse espaço foi denominado Clube Scalene, uma comunidade oficial onde os fãs se envolvem no processo criativo, recebem newsletters, têm acesso a pré-vendas, sorteios e conteúdos exclusivos, além de acumularem pontos que podem ser trocados por recompensas e experiências.
Como funciona a Superfans
A Superfans foi desenvolvida no modelo white label, um termo que descreve uma tecnologia que pode ser personalizada por quem a utiliza. Na prática, isso significa que cada artista ou banda pode ter sua própria comunidade com nome, identidade visual e funcionamento distintos, sem que o público perceba a presença de uma plataforma intermediária.
A ferramenta, que surgiu como uma solução interna da Scalene, foi estruturada para atender outros artistas que desejam criar canais diretos de relacionamento, dados e monetização, longe da dependência de redes sociais e plataformas de streaming. Isso porque, ao construir a Superfans com foco no comportamento e uso, em vez de apenas no conteúdo, a banda constatou que suas necessidades eram compartilhadas por outros artistas.
Embora muitos já tenham um público, nem todos contam com um espaço que lhes permita entender quem são seus fãs, como eles se relacionam com a obra e como tornar esse vínculo sustentável. Tomás Bertoni, guitarrista da Scalene, e Igor Rodrigues Pinheiro, manager da banda, comentam com exclusividade ao Mundo da Música como essa ideia foi idealizada, quais aprendizados surgiram ao longo do caminho e por que soluções desse tipo tendem a se expandir no mercado musical contemporâneo.
Entrevista: Scalene
Mundo da Música: A criação da plataforma foi impulsionada por uma insatisfação clara com streaming e redes sociais. Que lacunas específicas do mercado brasileiro vocês identificaram que ainda não estavam sendo atendidas por soluções existentes?
Igor Rodrigues Pinheiro: A principal lacuna é a ausência de autonomia real. No Brasil, o artista independente até tem acesso a ferramentas, mas geralmente dentro de estruturas que não são suas. O streaming resolve a distribuição, mas não o relacionamento. As redes sociais possibilitam o alcance, mas não oferecem previsibilidade nem profundidade. As poucas soluções de comunidade que existem nos pareceram limitadas, então decidimos adaptar o clube ao Scalene, e não o Scalene a outras plataformas. Percebemos que ninguém estava abordando o ponto crucial: criar um espaço onde o artista tivesse controle sobre a comunicação, inteligência e poder dos dados, além do ritmo da relação com o público, sem depender de mudanças de algoritmos ou plataformas que priorizam outros interesses. Dentro da plataforma, por exemplo, conseguimos testar um lançamento antes do streaming, pedir a opinião dos fãs, identificar quem realmente engaja, quem compra, quem participa e ajustar decisões em tempo real. Isso transforma completamente a forma como pensamos a estratégia artística e a produção.
Tomás Bertoni: O contato próximo e direto com os “superfãs” já é uma prioridade há algum tempo para artistas, selos e gravadoras. A plataforma pode também ser um meio de expandir o público, mas acredito que serve principalmente para aprofundar o relacionamento com aqueles que já acompanham o trabalho. Ou para inspirar pessoas que não se encaixam na categoria “superfãs” a se tornarem “superfãs”. Existem plataformas muito interessantes como Bandcamp ou Substack, mas não são soluções adequadas para o mercado brasileiro e você deve, naturalmente, utilizar a plataforma sob os termos que elas impõem. Dentro da “Superfans”, você adapta para a sua realidade as mesmas funcionalidades que Bandcamp e Substack oferecem, por exemplo. Você coleta dados da forma que for mais relevante para você, em vez de precisar interpretar as informações que as redes sociais ou as DSPs oferecem. Não estou dizendo que a “Superfans” necessariamente substitui as outras plataformas; isso dependerá de cada artista, mas já alterou nossa forma de usar as plataformas “tradicionais”, por assim dizer.
Mundo da Música: Em que momento vocês perceberam que isso deixava de ser apenas uma solução interna da banda e poderia se tornar um produto escalável para outros artistas?
Igor: Isso se tornou claro quando começamos a desenvolver o Clube com foco em comportamentos e não apenas em conteúdo. À medida que a plataforma foi ganhando forma, ficou evidente que os desafios que a Scalene enfrentava não eram exclusivos da banda. Eram questões recorrentes de artistas que já possuem um público, mas não têm um canal próprio para interagir com ele.
Quando percebemos que as decisões que estávamos tomando poderiam ser replicadas, não na questão do conteúdo, mas na lógica de funcionamento, entendemos que aquilo poderia se transformar em um modelo. Uma estrutura adaptável a diferentes artistas e fases de carreira. A plataforma pode se tornar, na prática, uma central de decisões: desde o que lançar, quando lançar, até como ativar uma base ou organizar uma pré-venda ou uma experiência exclusiva.
Tomás: Desde o design até a forma de uso, a plataforma se ajusta para qualquer banda ou artista, independentemente do gênero. E da maneira que criamos, a própria plataforma informa o uso; então o que percebemos é que o resultado se torna cada vez mais eficiente. E, cientes de como os artistas precisam equilibrar várias responsabilidades na vida profissional e pessoal, a plataforma permite um uso leve e divertido. Pode ser “estrategizado” de maneiras que se adequem à rotina do artista. E os fãs são recompensados de formas que não seriam em nenhuma outra plataforma.
Mundo da Música: Atualmente, qual é o principal problema que a plataforma resolve para um artista independente: monetização, dados, relacionamento com fãs ou controle estratégico da carreira? Ou a força reside exatamente na união desses fatores?
Igor: A força está, de fato, na combinação. Separar esses fatores é um erro comum. Monetização sem relacionamento não é sustentável. Dados sem estratégia não resultam em decisões. Relacionamento sem controle torna-se dependência de terceiros. O problema central que a plataforma resolve é devolver ao artista o controle da própria operação. A partir disso, monetização, dados e relacionamento começam a trabalhar juntos, ao invés de competirem entre si. O artista deixa de “apostar” e começa a testar. O produtor deixa de operar às cegas e passa a ter uma leitura real do público. É uma mudança de mentalidade antes de ser uma mudança de ferramenta.
Tomás: Creio que artistas, de diversas maneiras, se sentem subordinados às estruturas impostas. Ter o “Clube Scalene”, como denominamos nossa versão da plataforma, aborda essa “questão” que também é emocional e ideológica, muitas vezes.
Mundo da Música: Pensando em escala, como vocês vislumbram o crescimento da plataforma nos próximos anos: número de artistas, diversidade de perfis ou aprofundamento do uso por bases menores e mais engajadas?
Igor: Nossa perspectiva de escala não se baseia em volume massivo. É centrada em profundidade. Preferimos atender menos artistas, mas com um uso intenso, bases engajadas e impacto real em suas carreiras. Inicialmente, a ideia é acompanhar de perto todos os “superfans” disponíveis. Compreender como cada artista utiliza a plataforma, quais funcionalidades são mais pertinentes a cada perfil e construir inteligência junto com e para eles. Valorizamos mais o aprofundamento do uso por comunidades qualificadas do que uma expansão descontrolada. Ficaremos satisfeitos quando o modelo se sustentar e se tornar parte da rotina dos artistas e fãs.
Mundo da Música: Quais aprendizados da trajetória da banda foram fundamentais para o desenvolvimento do produto? Há erros do passado que influenciaram diretamente as decisões técnicas ou conceituais da plataforma?
Tomás: Poderíamos fazer uma entrevista apenas sobre isso? Brincadeiras à parte, é importante destacar que uma plataforma como essa proporciona uma segurança valiosa a longo prazo. Até alguns anos atrás, o Facebook era a principal rede social e o TikTok sequer existia. E daqui a cinco anos? E no ano que vem? O Spotify, como a principal DSP, também mudou muito em um curto período. Não importa o que aconteça, o “Clube Scalene” permanecerá ativo e será cada vez mais otimizado.
Igor: O aprendizado mais significativo foi compreender o custo de não ter controle. Ao longo dos últimos anos, enfrentamos momentos em que uma alteração de algoritmo, uma decisão de plataforma ou uma dependência excessiva de intermediários afetaram diretamente nosso alcance, receita e comunicação. Essas experiências moldaram decisões práticas, como priorizar comunicação direta, evitar excesso de ruído, não depender de métricas superficiais e pensar no produto a longo prazo.
Mundo da Música: Do ponto de vista financeiro, como foi estruturado o investimento inicial? O que foi mais desafiador nesse processo?
Igor: No universo do empreendedorismo, existe um termo chamado bootstrap, que significa “financiar com recursos próprios”. Nós financiamos o investimento inicial e, atualmente, a própria comunidade já ajuda a cobrir os custos fixos da plataforma. Não houve capital externo ou parceiros estratégicos neste primeiro momento. Essa foi uma escolha visando autonomia e sustentabilidade a médio e longo prazo.
Mundo da Música: Quais custos invisíveis costumam ser subestimados ao se falar em criar uma plataforma própria, especialmente para quem vem do lado artístico?
Igor: O maior custo invisível é o tempo. Tempo de planejamento, testes, ajustes e aprendizado. Outro custo geralmente subestimado é o emocional. Criar algo próprio demanda decisões, erros e uma curva de amadurecimento que não aparece no orçamento. Não é apenas desenvolver, mas operar, analisar dados, ouvir o público e ajustar constantemente. Além disso, ao estruturar a plataforma, ficou evidente que existe um potencial financeiro pouco explorado na carreira dos artistas. Muitas vezes, a renda está em materiais já existentes ou que exigem pouco esforço adicional, como versões a capella, instrumentais, demos, gravações de processos criativos ou conteúdos exclusivos que simplesmente não tinham um local adequado para serem oferecidos. Com um ambiente próprio, essas alternativas começam a gerar novas fontes de receita de maneira natural, sem competir com lançamentos oficiais ou streaming. É um valor que, na prática, já estava disponível para ser coletado, mas que antes não existia como produto. A plataforma organiza essas oportunidades e transforma o que antes era disperso em receita recorrente e previsível.
Mundo da Música: Até pouco tempo atrás, iniciativas desse tipo eram restritas a grandes empresas. O que mudou para que uma banda independente conseguisse tirar isso do papel agora?
Igor: A combinação de tecnologia mais acessível com conhecimento estratégico. Hoje é possível desenvolver soluções robustas sem equipes numerosa, desde que haja clareza de propósito e de problemas a serem resolvidos. A tecnologia proporciona mais tempo e nós estamos recuperando isso. Um exemplo prático é a redução significativa dos custos com anúncios, dependendo da praça, na promoção de shows, especialmente em produções próprias. Atualmente, por meio do Superfans, alcançamos, de forma mais econômica, simples e precisa, o fã que já se mostra mais disposto a adquirir ingresso.
Mundo da Música: Como vocês equilibram a mentalidade de uma banda em atividade com a de empreendedores de uma plataforma, sem que uma frente prejudique a outra?
Tomás: Se algum dia eu descobrir, conto para vocês. Mas, nesse caso, foi prazeroso, pois a criatividade sempre liderou o processo. Foi um tempo e energia dedicados para que, por meio da plataforma, pudéssemos alcançar um equilíbrio entre as partes artísticas e empreendedoras.
Igor: A chave é entender que a plataforma existe para servir à banda e não o contrário. As decisões estratégicas sempre partem da pergunta: isso fortalece a carreira artística ou gera ruído?
Mundo da Música: Para artistas ou equipes que veem os modelos diretos com fãs como um caminho, mas ainda não sabem por onde iniciar, qual é o primeiro passo estratégico antes de pensar em tecnologia ou produto?
Igor: O primeiro passo é compreender o próprio público. Antes de qualquer ferramenta, é necessário responder: quem são essas pessoas, por que elas se importam e o que valorizam na relação com o artista. Tecnologia é consequência. O produto é consequência. Sem clareza de relacionamento, qualquer solução se torna mais uma camada de ruído. Pensar fora da caixa inicia-se muito mais na estratégia do que na ferramenta. Quando isso se torna claro, a tecnologia deixa de ser um problema e passa a ser uma aliada.
Tomás: Concordo, mas ter essa clareza real é, na minha opinião, quase impossível apenas através de redes sociais, interações em shows e instinto. Agora, por meio da plataforma, pedimos aos fãs que votassem na música que desejavam uma versão acústica exclusiva para o Clube Scalene. Ninguém de nós previu corretamente qual seria a mais votada. Perguntamos diretamente aos fãs mais engajados qual música eles queriam, e eles escolheram, receberam benefícios por participar da escolha e agora iremos entregar o produto que eles escolheram. Provavelmente, se tivéssemos feito outras escolhas, o resultado da venda da versão acústica exclusiva na plataforma teria sido menos efetivo.
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Fonte: Blog Mundo da Música
