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O Dia Mundial do Compositor, comemorado anualmente em 15 de janeiro, surge em um cenário contraditório para a indústria musical. Em 2026, o consumo global de música continua a crescer, impulsionado pelo streaming, porém a viabilidade financeira para os criadores das canções permanece um assunto delicado. Pesquisas recentes revelam que muitos compositores ainda encontram dificuldades para transformar suas criações em uma fonte de renda consistente.

De acordo com o relatório “Music Creators’ Earnings Gap”, publicado pela CISAC, a discrepância entre o crescimento do mercado musical e a remuneração dos compositores e autores continua a aumentar, especialmente na era do streaming. A pesquisa analisa informações de sociedades autorais em mais de 30 países e indica que a maior parte do aumento da receita global não chega de forma proporcional aos criadores das obras.

O estudo revela que os direitos autorais recebidos por compositores aumentam em um ritmo mais lento do que as receitas totais da indústria, e menos de 15% deles conseguem sobreviver exclusivamente da composição musical. Em termos práticos, isso significa que, apesar do aumento no consumo de música, a renda média da categoria continua pressionada, com uma forte concentração em poucos catálogos de sucesso.

Criação no centro, remuneração nas bordas

Esses dados ajudam a esclarecer por que a discussão sobre o reconhecimento dos compositores voltou a ganhar espaço. Além da questão financeira, os relatórios da CISAC apontam para uma assimetria estrutural entre quem cria as obras e os agentes que detêm visibilidade, poder de negociação e acesso aos principais fluxos de receita da indústria.

Esse cenário também é comentado por João Ferreira, compositor da Warner Chappell Music Brasil e o primeiro brasileiro indicado ao prêmio de Melhor Compositor no Latin Grammy. Ao abordar a situação da classe, João enfatiza a importância do fortalecimento coletivo e do reconhecimento da cultura do compositor brasileiro, tópicos que estão em sintonia com os alertas feitos pelos estudos internacionais.

“Um feliz 2026 para todos e especialmente para os compositores. Que continuemos nessa busca por palavras bonitas, frases que fazem sentido para nós e para os outros, melodias e harmonias maravilhosas. Que, neste e nos anos futuros, nossa classe se fortaleça, possibilitando trocas entre nós. Espero que os compositores brasileiros sejam cada vez mais reconhecidos. Acreditamos que temos uma cultura rica e a carregamos nas nossas mãos como compositores desta geração contemporânea. Desejo que possamos absorver e catalisar tudo que já aconteceu para novas criações, mantendo e enriquecendo ainda mais a música brasileira, que é essa paixão tão linda que temos.”

Streaming aumenta o alcance, mas não resolve a equação

Crédito: Pavel Danilyuk

A ascensão do streaming, detalhada anualmente nos relatórios da IFPI, ampliou o alcance da música e alterou os hábitos de consumo em todo o mundo. Contudo, o relatório “Rebalancing the Song Economy”, da MIDiA Research, revela que a repartição de receitas no ambiente digital permanece desfavorável aos compositores.

O estudo indica que, mesmo com o aumento no consumo, a participação autoral cresce em um ritmo inferior ao do mercado como um todo. Isso justifica por que a maior parte dos compositores precisa acumular direitos autorais com outras atividades, como produção musical, aulas, shows ou empregos paralelos.

Nesse cenário, os comentários de João Ferreira sobre a troca entre compositores e o fortalecimento da classe ganham um sentido prático. Os dados sugerem que redes colaborativas, editoras estruturadas e acesso a mercados internacionais são fatores cruciais para mitigar a vulnerabilidade econômica da profissão.

A nomeação de João Ferreira ao Latin Grammy é um marco simbólico, mas também revela o contraste entre reconhecimento artístico e a realidade estrutural. O compositor é responsável por canções que obtiveram grande circulação, como “Flores da Rua”, gravada por Samuel Rosa, “Água-Viva”, em parceria com Ana Caetano, além de colaborações com Vitor Kley e Lagum.

Ainda assim, os relatórios internacionais deixam claro que trajetórias bem-sucedidas coexistem com um cenário em que a maioria dos compositores ainda está longe da estabilidade financeira. O desafio, portanto, não é apenas individual, mas sim estrutural.

Inteligência artificial destaca a tensão sobre direitos

Além das questões históricas de remuneração, a inteligência artificial se apresenta como uma nova fonte de preocupação em 2026. Um estudo econômico da CISAC adverte sobre os impactos que podem afetar a renda autoral caso o uso de obras criativas no treinamento de sistemas de IA ocorra sem o devido licenciamento.

Essa preocupação é compartilhada por Fernanda Takai, cantora, compositora e diretora vogal da UBC, que relaciona o avanço tecnológico à necessidade constante de monitoramento sobre os direitos autorais.

“O ano de 2026 se inicia com um grande desafio: garantir que nossos direitos sejam reconhecidos e respeitados, uma vez que o uso crescente da inteligência artificial se torna evidente. Porém, isso não deve nos desanimar, pois essa luta nunca foi fácil. Eu espero que as compositoras continuem demonstrando sua força e que novas parcerias surjam para multiplicar os talentos femininos, refletidos em belas canções.”

Organização, troca e futuro da composição

Crédito: Cottobro Studio

Os relatórios internacionais e as declarações dos compositores convergem em pontos-chave: fortalecimento coletivo, atualização das legislações sobre direitos autorais e maior envolvimento dos autores em discussões regulatórias e institucionais. As preocupações com a inteligência artificial se somam aos desafios históricos, como a repartição de receita e o reconhecimento profissional.

Com base em dados, depoimentos e análises, o Dia Mundial do Compositor de 2026 revela um panorama em que a criação ainda é o coração da indústria musical, mas permanece distante de uma remuneração justa. O desafio que se impõe para os próximos anos é transformar esse protagonismo criativo em condições mais equitativas para aqueles que escrevem canções.

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Fonte: Blog Mundo da Música

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