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O Spotify enfrenta mais uma vez críticas de selos independentes na Europa, após a publicação de um novo estudo que examina os impactos da regra de 1.000 streams anuais para a monetização de músicas na plataforma. O estudo apresenta que 65% dos selos e artistas independentes do Sudeste Europeu tiveram uma queda significativa na receita desde a implementação dessa política.

A norma, que começou a valer no final de 2023, determina que uma faixa só gera royalties ao atingir pelo menos 1.000 streams em 12 meses. Para o Spotify, esse modelo reestrutura os pagamentos e realoca recursos para músicas com consumo contínuo. No entanto, para entidades independentes, o critério impõe um filtro que afeta desproporcionalmente mercados menores e catálogos amplos.

A pesquisa foi realizada pela Association of Independent Music Publishers and Producers Bulgaria (ANMIP-BG), coletando respostas de 71 selos e produtores independentes entre outubro e novembro de 2025, com a participação de profissionais da Bulgária, Sérvia, Romênia, Albânia e Macedônia do Norte.

O impacto nos selos independentes

De acordo com o estudo, 65% dos participantes relataram ter enfrentado um impacto negativo em sua receita após a implementação do limite mínimo de streams. Esse grupo é composto principalmente por selos que possuem mais de 100 faixas disponíveis no Spotify, incluindo catálogos que somam milhares de músicas.

Para esses selos, a questão não está em faixas específicas que têm pouco consumo, mas no efeito cumulativo da desmonetização em todo o catálogo. Mesmo quantias pequenas por faixa, quando somadas, tornam-se uma parte significativa da receita anual.

“A política do limite é especialmente severa para artistas de diversos gêneros que podem não alcançar 1.000 streams rapidamente, mas ainda assim oferecem música valiosa. O Spotify deve considerar uma abordagem mais inclusiva, semelhante ao modelo do YouTube”, declara um representante do selo sérvio Take It or Leave It Records, que conta com mais de 10 mil faixas disponíveis na plataforma.

Outros 20% dos participantes relataram um impacto negativo leve, principalmente selos que têm entre 50 e 100 faixas. Por outro lado, 15% afirmaram não ter sentido efeitos ou disseram que a renda do streaming não é uma fonte significativa para eles.

“Observamos uma diminuição na receita, mas ainda é algo que conseguimos administrar. O problema é que, se esse limite for aumentado no futuro, o impacto poderá se tornar muito mais difícil de suportar”, comenta Vasil Anastasov, cofundador da MUZE Music.

Catálogos grandes e gêneros de nicho

Um dos aspectos mais abordados no estudo é a relação direta entre o tamanho do catálogo e a perda de receita. Selos que possuem milhares de faixas informam que a política impacta especialmente repertórios históricos, lançamentos de nicho e gêneros com audiências menores.

Os estilos mais mencionados incluem jazz, música clássica, world music, folclore regional e turbo-folk. Esses gêneros normalmente têm um consumo contínuo ao longo do tempo, mas raramente acumulam grandes volumes de streams em períodos curtos, dificultando a atingimento do limite anual imposto pela plataforma.

“Mesmo um limite mais baixo, como 100 streams, seria muito mais inclusivo e proporcionaria retornos mais justos para artistas independentes”, observa um representante da Multimedia Music, selo com mais de 5 mil faixas no Spotify.

Além do aspecto financeiro, o estudo também destaca dificuldades com visibilidade. Para alguns participantes, a falta de curadoria local no Spotify limita o acesso de artistas do Sudeste Europeu a playlists relevantes, reduzindo seu alcance e oportunidades de descoberta.

Curadoria, algoritmo e propostas do setor

Plataformas de streaming (Crédito: Cottonbro Studio)

Quando perguntados sobre possíveis soluções, os participantes do estudo apontaram três abordagens principais. Para 40%, a opção mais imediata seria reduzir ou eliminar o limite mínimo de streams, retornando ao pagamento por consumo efetivo, independentemente do volume anual.

Outros 35% sugerem ajustes no funcionamento do algoritmo e no sistema de playlists, permitindo maior visibilidade para artistas menos conhecidos, gêneros regionais e repertórios de nicho. Já 25% defendem a criação de equipes de curadoria local, formadas por editores e especialistas familiarizados com os mercados do Sudeste Europeu.

“O Spotify deveria designar curadores em mercados sub-representados, como os Bálcãs. Nossa música precisa ter a oportunidade de alcançar públicos que realmente a apreciem”, afirma Rumen Bonchev, fundador da Riva Sound Records, selo criado em 1991 na Bulgária.

A posição do Spotify

Após a divulgação do estudo, o Spotify contestou as conclusões e defendeu a regra dos 1.000 streams. Em uma nota enviada à imprensa internacional, a empresa afirma que, para licenciadores com escuta significativa, os pagamentos totais aumentaram após a alteração no modelo.

De acordo com a plataforma, 99,5% de toda a escuta no Spotify ocorre em faixas que já superam o limite mínimo, e essas gravações têm recebido valores mais altos sob o novo sistema. O Spotify também menciona que as faixas que não atingem o limite geravam, em média, cerca de US$ 0,02 por mês, quantias que muitas vezes não chegavam aos artistas por estarem abaixo dos limites mínimos de repasse dos distribuidores.

A empresa também cita dados da IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica) que indicam um crescimento acelerado nos mercados do Leste e do Sudeste Europeu. Em 2024, a Romênia teve um crescimento de 26,9% em receita musical, com um avanço de 29,7% no streaming.

Para o Spotify, o estudo da ANMIP-BG reflete apenas um grupo restrito de empresas e não leva em consideração o aumento geral dos pagamentos para as faixas elegíveis no novo modelo.

Um debate que segue em aberto

Embora o crescimento do streaming em mercados emergentes continue, o estudo revive discussões sobre como políticas globais afetam realidades locais distintas. A ANMIP-BG argumenta que o limite foi concebido com base em grandes mercados como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, mas aplicado uniformemente em regiões com menor população e menor penetração de plataformas digitais.

O relatório também sugere maior atenção regulatória, inclusive debates sobre a classificação do Spotify como “gatekeeper” no contexto do Digital Markets Act (DMA) e do Digital Services Act (DSA) da União Europeia.

Enquanto o Spotify defende que seu modelo torna o sistema mais eficiente, representantes do setor independente alertam para os riscos de concentração e as dificuldades estruturais enfrentadas por mercados regionais. A expectativa é que o assunto permaneça em pauta ao longo de 2026, envolvendo associações, plataformas e formuladores de políticas públicas.

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Fonte: Blog Mundo da Música

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