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Quarenta anos após seu lançamento original, o álbum “Raça Humana”, de Gilberto Gil, renasce através da Xirê, produtora liderada por Andrea Franco. O projeto “Raça Humana Reloaded” dá continuidade à série de revisitações iniciadas com “Refavela40”, desta vez com um foco no futuro.

A escolha do álbum de 1984 foi intencional: representa uma das obras mais experimentais da carreira de Gil, caracterizada por guitarras, sintetizadores e uma conexão com a new wave e o pop global. Para Andrea, essa característica vanguardista proporcionava a base perfeita para um projeto que combinasse curadoria, inovação e memória, reafirmando a relevância das discussões sobre identidade, diversidade e tecnologia, presentes nas letras e sonoridades do álbum original.

A iniciativa da Xirê visou transformar “Raça Humana” em uma nova experiência sonora e conceitual, honrando o DNA do disco enquanto atualizava sua sonoridade para os dias atuais. O resultado é uma fusão entre o orgânico e o eletrônico, entre o legado e a experimentação.

Gilberto Gil (Crédito: Leo Aversa)

Cada faixa foi concebida como um encontro intergeracional, dirigido por produtores e artistas capazes de transmitir a linguagem musical de Gilberto Gil através de timbres contemporâneos. Em vez de recriar o passado, o projeto ambiciona expandi-lo, promovendo um diálogo direto com o universo digital e a estética do pop atual.

A curadoria dos intérpretes se tornou um dos elementos centrais da estratégia. O projeto conta com a participação de Ana Frango Elétrico, Mariana Volker, Sílvia Machete, Teago Oliveira, Mãeana, Jovem Dionísio, Jota.Pê, Os Garotin, Mestrinho, Chico César e Flor Gil, criando um elenco que abrange várias gerações e estilos da música brasileira.

Essa escolha reflete a visão da Xirê sobre a relevância das releituras no mercado atual: mais do que um resgate de um clássico, trata-se de promover novos encontros e reposicionar o repertório de Gil dentro da dinâmica de consumo e descoberta musical das plataformas digitais. Nesse aspecto, “Raça Humana” não é apenas uma celebração do passado, mas uma atualização simbólica e estética do conceito de humanidade presente na obra de Gil.

Em uma entrevista exclusiva ao Mundo da Música, a CEO da Xirê compartilha detalhes dos bastidores do projeto.

Capa e contracapa de Raça Humana Reloaded (Crédito: Divulgação)

Entrevista: Andrea Franco revela bastidores do lançamento de “Raça Humana Reloaded”

Mundo da Música: O projeto de “Raça Humana” surge após o êxito de “Refavela40”. Como foi a decisão de que este seria o próximo capítulo na série de revisitações da obra de Gilberto Gil?

Andrea Franco: O sucesso de ‘Refavela40’ confirmou o interesse do público por explorações curatoriais na obra de Gil. A escolha de ‘Raça Humana’ surgiu de uma necessidade artística e estratégica. O álbum de 1984 é, sem dúvida, o mais ‘futurista’ e inquieto do catálogo de Gil, representando um momento de ruptura estética, onde ele dialoga com as sonoridades globais da época. Optamos por este projeto porque sua temática – identidade, diversidade e tecnologia – é urgentemente contemporânea, permitindo uma revisitação que soe como um álbum novo, e não apenas como uma homenagem.

Mundo da Música: O álbum original de 1984 representava um ponto de virada estética para Gil, com guitarras, sintetizadores e uma forte influência da new wave. Como essa sonoridade foi reinterpretada nas novas versões sem perder a essência do disco?

Andrea Franco: O desafio era exatamente esse: honrar a ousadia original sem cair no anacronismo. O Gil de 1984 utilizou a tecnologia de sua época (sintetizadores, drum machines) para expressar sua visão. Na revisitação, mantivemos a ‘estrutura’ rítmica e harmônica do disco, mas reinterpretamos o timbre. As guitarras e os sintetizadores contemporâneos conversam com o presente, incorporando estéticas como o lo-fi ou a precisão do pop atual. O DNA do disco, que é a pulsação rítmica e a clareza melódica de Gil, foi preservado, enquanto o ‘corpo’ sonoro foi atualizado por produtores que compreendem o diálogo entre o orgânico e o eletrônico.

Ana Frango Elétrico, Jota.pê, Jovem Dionísio, Os Garotin, Teago Oliveira, Chico César, Flor Gil, Mariana Volker, Silvia Machete, Mestrinho e mãeana recriam álbum de Gilberto Gil

Mundo da Música: A seleção do “elenco” é um dos aspectos mais significativos do projeto. Como foi o processo de reunir artistas de gerações tão distintas, como Ana Frango Elétrico, Jovem Dionísio, Chico César e Flor Gil, em torno do mesmo repertório?

Andrea Franco: A curadoria do ‘elenco’ foi um dos pilares conceituais do projeto. ‘Raça Humana’ vai além de Gil; trata-se da perenidade de sua mensagem. Precisávamos de vozes que representassem o espectro completo da música brasileira contemporânea. Artistas como Chico César oferecem uma conexão histórica e uma sofisticação lírica. Ana Frango Elétrico e Jovem Dionísio trazem o novo pop e a desconstrução estética, mostrando que a obra de Gil inspira a vanguarda. A presença de Flor Gil é simbólica, representando a continuidade do legado familiar. O processo foi orgânico: mapeamos quem já dialogava com Gilberto Gil, mesmo que inconscientemente, e os convidamos para uma conversa musical.

Mundo da Música: Gil sempre foi um artista atento à tecnologia e à inovação. Como esses elementos se manifestam neste projeto, seja na produção musical, na estratégia de lançamento ou na forma de conectar o álbum a novos públicos?

Andrea Franco: Gilberto Gil sempre foi um artista à frente de seu tempo, tanto na Tropicália quanto no uso da internet. Essa visão se manifesta no projeto de três maneiras principais:

1. Produção Musical: Adoção de tecnologias de estúdio que possibilitam essa ‘costura’ sonora entre diferentes artistas e produtores.

2. Estratégia de Lançamento: Não lançamos apenas um álbum, mas uma narrativa multimídia, utilizando redes sociais e plataformas digitais para criar contextos visuais e conceituais para cada faixa.

3. Conexão com o Público: Usamos a tecnologia para ‘desemparedar’ a memória. Ao incluir a obra em playlists e formatos de consumo contemporâneos, garantimos que um clássico de 1984 possa ser descoberto por um jovem de 18 anos lado a lado com lançamentos do pop global.

Mundo da Música: A Xirê tem se afirmado como uma produtora que une curadoria e memória. Qual é o papel da empresa na preservação e atualização do legado de artistas como Gil, e como vocês veem o impacto cultural desse tipo de releitura no cenário atual?

Andrea Franco: A Xirê surgiu com a missão de ser mais do que uma produtora; somos uma casa de curadoria e memória viva. Nosso papel é atuar como um catalisador que não só preserva um legado, mas o projeta para o futuro. Acreditamos que a obra do Seu Gilberto não deve ser relegada ao passado. Projetos de releitura, como ‘Raça Humana’, são investimentos estratégicos na longevidade cultural. Eles criam um ciclo virtuoso: o artista original é redescoberto, e a nova geração de talentos ganha um palco para dialogar com a história. É um impacto cultural que solidifica a música brasileira como uma potência atemporal.

Mundo da Música: Para além de celebrar um clássico, “Raça Humana” também conversa sobre identidade, diversidade e futuro. Que mensagens vocês almejam que o público absorva ao ouvir esse reencontro de gerações?

Andrea Franco: Esperamos que o público absorva, antes de tudo, a mensagem central de pertencimento e diversidade. ‘Raça Humana’ nos convida a celebrar nossas diferenças e buscar a unidade na pluralidade. Diante da polarização atual, ouvir gerações, estéticas e identidades distintas cantando juntas o mesmo repertório é, em si, um ato político e poético. Acreditamos que o álbum propõe um olhar otimista para o futuro, um convite a abraçar a complexidade de ser humano e a beleza de nos reconhecermos mutuamente.

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Fonte: Blog Mundo da Música

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