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É sabido que o Suno se tornou uma das marcas mais polêmicas da indústria musical. Em pouco mais de dois anos de operação, a empresa de inteligência artificial evoluiu de um experimento tecnológico para um símbolo de uma controvérsia que envolve direitos autorais, valor artístico e o futuro da criação musical.

Com uma avaliação atual de US$ 2,45 bilhões, a plataforma permite a criação de músicas inteiras a partir de simples comandos de texto. Para investidores e entusiastas de tecnologia, isso representa um novo formato criativo em desenvolvimento. Porém, para muitos artistas, compositores e profissionais da área, o Suno é mais uma pressão sobre um mercado já fragilizado pelo streaming.

No epicentro desse debate está Mikey Shulman, CEO e cofundador da empresa, que resumiu essa dicotomia em uma entrevista ao The Guardian, fazendo uma comparação que rapidamente se espalhou pelo setor. Segundo ele, o Suno tornou-se “o Ozempic da indústria musical”: todos o utilizam, mas ninguém está disposto a admitir. Essa frase ilustra um cenário onde ferramentas de IA já fazem parte do processo criativo, mesmo entre aqueles que criticam abertamente esse tipo de tecnologia.

“Já me disseram que somos o Ozempic da indústria da música – todos estão usando, mas ninguém quer tocar no assunto”.

A noção de música como algo interativo

Estabelecido há pouco mais de dois anos, o Suno possibilita que qualquer usuário produza uma música completa a partir de descrições simples. Embora não seja possível solicitar diretamente uma canção “no estilo de” um artista específico, comandos como “pop confessional de estádio” ou “country emocional com referências a relacionamentos passados” costumam resultar em produções facilmente reconhecíveis.

Para Shulman, a meta não é substituir músicos, mas apresentar um novo formato para a música gravada. Ele acredita que o futuro inclui faixas que podem ser modificadas, remixadas e compartilhadas socialmente, unindo criação e consumo em um único ambiente digital.

Na visão do executivo, a tecnologia sempre influenciou a maneira como a música é criada e divulgada. Desde o multitrack até o sampler, do home studio ao streaming, cada inovação encontrou resistência antes de ser incorporada. A inteligência artificial, para ele, segue esse mesmo percurso.

Bilhões em avaliação, milhões em usuários

Apesar das críticas, o Suno continua a atrair grandes investimentos. Em novembro, a empresa levantou US$ 250 milhões em uma rodada que elevou sua avaliação para US$ 2,45 bilhões. E não é apenas a companhia de Shulman que se beneficia. Dados de investidores mostram que a inteligência artificial recebeu aproximadamente US$ 34 bilhões em investimentos privados em 2024.

O contraste aparece ao se analisar a base de usuários. Apresentações vazadas indicam que a plataforma possui cerca de 1 milhão de assinantes pagantes, com planos mensais em torno de US$ 10. Este número levanta dúvidas sobre a capacidade de crescimento necessária para manter avaliações tão altas no médio prazo.

O CEO argumenta que os investidores ainda subestimam o impacto cultural e econômico da música. Para ele, quando esse efeito se torna claro, o potencial de expansão da ferramenta se evidencia.

“O que os investidores precisaram de ajuda para entender é o quão importante a música é no mundo. Quando você mostra isso a eles, a cabeça muda, e eles percebem que muito, muito mais é possível.”

Processos, direitos autorais e a “internet aberta”

Warner Music Group e Suno firmam acordo (Crédito: Divulgação)

A questão mais delicada em torno do Suno diz respeito ao treinamento de seus modelos de inteligência artificial. A companhia enfrenta ações judiciais movidas pela Recording Industry Association of America (RIAA), que representa gravadoras nos EUA, e pela Gesellschaft für musikalische Aufführungs- und mechanische Vervielfältigungsrechte (GEMA), a sociedade alemã de gestão coletiva de direitos autorais. Ambas alegam uso não autorizado de obras protegidas no treinamento dos sistemas da plataforma.

Até agora, o Suno firmou acordo apenas com a Warner Music Group. Enquanto isso, processos envolvendo outras grandes gravadoras persistem. Shulman afirma que os modelos foram treinados com músicas disponíveis na chamada “internet aberta”, mas evita detalhar critérios devido às disputas legais e questões comerciais.

A indústria fonográfica contesta a ideia de uso justo, sustentando que sistemas de IA podem produzir conteúdos que competem diretamente com obras originais.

Fluxo contínuo de faixas e a reação das plataformas

A evolução da música gerada por IA já está impactando os serviços de streaming. A Deezer relatou que mais de um terço das músicas entregues diariamente à sua plataforma são criadas por inteligência artificial, com altos índices de fraudes associados à manipulação de streams.

Em resposta, algumas empresas passaram a implementar políticas mais rigorosas. O Bandcamp anunciou que não aceita músicas geradas total ou majoritariamente por IA. O próprio Suno afirmou ter intensificado filtros e salvaguardas após incidentes envolvendo conteúdos extremistas.

Shulman reconhece os riscos, mas reafirma que a qualidade é uma questão subjetiva. Ele menciona produções criadas com seu filho pequeno como exemplos de músicas sem valor comercial, mas que carregam significativo significado pessoal.

Uso discreto e resistência pública

Ao abordar a relação dos músicos com ferramentas de inteligência artificial, Mikey Shulman observa que a adesão geralmente ocorre de maneira mais aberta quando a conversa sai do discurso público e entra na prática. Em uma entrevista ao podcast 20VC, o CEO já afirmou que muitos artistas veem o Suno como um recurso para facilitar o processo criativo.

“Acho que a maioria das pessoas não aprecia a maior parte do tempo que dedica à música.”

A comparação com o Ozempic surge precisamente desse uso discreto. Assim como o medicamento se tornou um símbolo de eficiência rápida e discreta na perda de peso, a IA musical estaria sendo adotada nos bastidores, enquanto o debate público permanece marcado por desconfiança e tensão.

O futuro do Suno depende de novos acordos de licenciamento, decisões judiciais e de como artistas e plataformas lidarão com a coexistência entre a criação humana e algoritmos. No momento, a empresa se destaca como uma das principais figuras no centro do debate, dividindo a indústria entre curiosidade e cautela.

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Fonte: Blog Mundo da Música

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