A Udio anunciou nesta terça-feira (20) uma nova parceria estratégica com a Merlin, organização que representa selos independentes em mais de 70 países. Este acordo estabelece uma base formal de licenciamento para o uso de gravações no treinamento de modelos de inteligência artificial, representando um avanço significativo da empresa na construção de relações comerciais com a indústria da música.
A movimentação ocorre após parcerias estabelecidas com Universal Music Group e Warner Music Group no final de 2025, as quais encerraram processos promovidos pelas gravadoras contra a plataforma por violação de direitos autorais. Agora, ao incluir o setor independente nesse diálogo, a Udio demonstra uma mudança clara de postura: sair do campo jurídico e organizar sua atuação a partir de contratos licenciados.
Conforme o comunicado conjunto, somente os membros da Merlin que optarem por participar terão seus catálogos utilizados. A compensação financeira será destinada aos selos e artistas envolvidos, respeitando critérios de consentimento e controle sobre o repertório.
Como funciona o acordo entre Udio e Merlin
O acordo permite que a Udio utilize gravações de selos associados à Merlin exclusivamente para o treinamento de sistemas de inteligência artificial. A adesão não é automática, e cada detentor de direitos decide se deseja ou não integrar o modelo.
As empresas garantem que o contrato inclui salvaguardas para proteger o valor da criação humana. Na prática, isso envolve limites claros de uso do conteúdo e mecanismos de remuneração para os titulares dos direitos, seguindo uma lógica semelhante à já aplicada em licenciamentos digitais tradicionais.
A Merlin representa cerca de 15% do mercado global de música gravada e atua como negociadora de licenças em nome de seus membros com plataformas como Spotify, Apple Music, Meta e YouTube. A inclusão da inteligência artificial nesse portfólio demonstra como o tema está se tornando mais uma frente formal de negociação no setor.
Charlie Lexton, CEO da Merlin, declarou:
“À medida que a IA evolui, é essencial para a Merlin trabalharmos com parceiros que honrem os artistas, seu trabalho e as exigências de licenciamento musical. Há algum tempo, Merlin e Udio mantêm conversas focadas numa base de consentimento e remuneração justa. Estamos excitados com a visão da Udio e com a forma como eles claramente respeitam e valorizam nossos membros e seus artistas.”
O histórico recente de disputas judiciais
Antes de anunciar a parceria com a Merlin, a Udio esteve no centro de um embate legal com as principais gravadoras do mundo. Em 2024, a Recording Industry Association of America (RIAA) processou a empresa e a concorrente Suno, alegando uso não autorizado de obras protegidas por direitos autorais.
No caso da Udio, os processos envolvendo Universal e Warner foram encerrados depois de acordos firmados em outubro e novembro de 2025. A Sony Music, por outro lado, ainda não anunciou uma parceria com a empresa, o que torna o acordo com a Merlin um avanço significativo em direção a um conjunto quase completo de licenças no mercado global.
Enquanto isso, a Suno continua enfrentando ações judiciais não só das grandes gravadoras, mas também de entidades de gestão coletiva, como a dinamarquesa Koda e a alemã GEMA.
O papel dos artistas independentes no modelo da Udio
Andrew Sanchez, cofundador e CEO da Udio, destacou que os artistas independentes são fundamentais para essa nova parceria.
“Os artistas independentes são a força motriz desta parceria. Ao nos unirmos à Merlin, asseguramos que eles mantenham controle sobre seu trabalho e sejam recompensados por sua criatividade. Juntos, estamos construindo uma plataforma que oferece aos fãs e criadores ferramentas incomparáveis, poder real e uma conexão mais profunda com a música que amam. Não estamos apenas imaginando o futuro da criação musical — estamos garantindo que os artistas independentes nos ajudem a liderá-lo.”
A empresa planeja lançar, ainda em 2026, uma plataforma de criação musical baseada nesses modelos licenciados, destinada tanto a criadores quanto a fãs.
IA como nova frente de negociação para selos
Para a Merlin, o acordo com a Udio complementa outras iniciativas recentes na área da inteligência artificial. Em 2025, a organização firmou parceria com a empresa de áudio ElevenLabs, focada na geração de música a partir de comandos de texto.
Neste contexto, a entidade defendeu que acordos licenciados são a abordagem mais segura para integrar a IA no mercado musical sem comprometer os direitos autorais. Essa mesma lógica é reiterada agora no discurso de Lexton, que assumiu a posição de CEO no início de 2026, após a saída de Jeremy Sirota.
“A nossa parceria demonstra que a Merlin está comprometida em participar da criação das oportunidades que a IA promete, em vez de apenas reagir ao seu desenvolvimento.”
Próximos passos da Udio no mercado
Além dos acordos de licenciamento, a Udio está começando a estruturar sua relação direta com artistas e profissionais da indústria. Recentemente, a empresa publicou uma vaga para Head of Artist Partnerships, com base em Los Angeles ou Nova York, voltada ao gerenciamento de relações com artistas, selos, managers e editoras.
A Udio conta com investidores como a16z, Redpoint, Hanwha, will.i.am, Steve Stoute e Kevin Wall. O avanço nos acordos indica que a empresa busca consolidar sua base regulatória antes de expandir comercialmente suas ferramentas de criação musical baseadas em IA.
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Fonte: Blog Mundo da Música
